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Vale do Fim | Capítulo 5 (Parte 1)

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Para ler, todas as segundas, quintas e sábados


Capítulo 5Destino (Parte 1)

Eva não ouviu o despertador. Estava completamente exausta. Quase não dormia desde que acontecera o acidente, haviam-se passado quatro dias. Desde esse dia que sentia a sua cabeça a latejar e sentia-se estranha, não sabia explicar porquê, mas sentia alterações no seu estado de espírito e até fisicamente. Deu por si da sala para o quarto num ápice, pensou que isso não passou de uma coisa da sua cabeça, aquilo não podia ter acontecido, não era humano, o seu cérebro não estava a funcionar bem desde aquele dia. Mas aquilo podia ser real, Eva já não tinha garantias do que era possível ou impossível a partir do momento em que um menino acorda no seu próprio velório. Não era muito chegada a Joana, frequentava o seu café e falavam esporadicamente, mas o que acontecera ao filho da mulher não a deixou indiferente. Telefonou-lhe no dia a seguir ao sucedido. O menino tinha desvanecido novamente. Essa declaração fizera com que a rapariga ficasse preocupada com o que tinha acontecido no autocarro. Uma criança que morria e ressuscitava, ela que se deslocava tão rápido da sala para o quarto… nada parecia normal naqueles dias. Queria ter sabido das análises e dos exames realizados, mas esses pareciam demorados. Os médicos não tinham previsão de quando o laboratório iria mandar os resultados.
    
Levantou-se tarde, saiu de casa à pressa. Queria treinar para a competição de ballet durante toda a manhã, mas a manhã já ia a meio. Estacionou o carro num dos parques principais do concelho e seguiu o resto do caminho a pé. Passou num café e tomou o pequeno-almoço e seguiu directamente para o espaço onde costumava treinar. A sala era só utilizada durante a tarde, quando uma amiga sua costumava dar aulas de ballet, de manhã não tinha ninguém e ela precisava disso mesmo, sossego, depois de dias completamente desconcertantes.
    
Quando ia a passar num beco ouviu vozes. Olhou para lá e viu três rapazes a cercar um outro.
   
- Eu não fiz nada de mal! Vocês não sabem o que dizem! – Dizia o rapaz que estava no meio dos três.
    
- Cala-te Inglês de um cabrão! Tu e a tua trupe fizeram aquilo àquele autocarro em Vale do Fim. Sabemos que foram vocês. Vais sair daqui para o hospital com a carga de porrada que vais levar.
      
Eva ficou aflita com o que ouviu. Ela era a única que estava a passar ali naquele momento e temia não ter força para salvar aquele rapaz dos outros três. Nervosa, deu um passo e outro e sem saber como já estava no centro da discussão mesmo ao lado da vítima.
    
- Quem é esta aberração? Uma criação tua aposto, seu merdas! – Balbuciou um dos três indivíduos. Eva estava tão assustada quanto eles, como é que ela conseguiu andar tão rápido? Demorou apenas dois segundos para atravessar o que precisava de trinta.
    
- Eva? – Disse o rapaz que estava prestes a ser agredido. Outra situação que a deixou nervosa. Ela não conhecia aquele rapaz de lado nenhum, como sabia ele o seu nome?
    
- Seja lá o que ela for é melhor fugirmos daqui! – Disse um outro agressor. – Se ela apareceu aqui do nada sabemos lá o que ela é capaz de fazer. Ela pode ser capaz de nos matar!
    
Os outros dois cederam ao que o outro disse e desataram a correr deixando Eva e o rapaz sozinho.
    
- Obrigado Eva! Se não fosses tu eu poderia estar em apuros. Tu salvaste-me! Eu sabia que o que aconteceu não foi em vão. Tu hoje provaste ser uma heroína. Todos podem ser heróis, vocês os seis podem ser heróis.
   
 Eva não estava a entender nada do que se estava a passar ali. O rapaz sabia o seu nome, sabia do acidente, pelo menos era o que os três outros rapazes estavam a dizer, e não era português, embora isso só se percebesse pela pronúncia porque parecia dominar bem o idioma. Inglês, eles disseram que ele era inglês!
    
- Como sabes o meu nome? Porque queriam eles te bater? – Lançou Eva para o ar em busca de respostas. Sabia que aquele rapaz sabia mais do que se tinha passado no autocarro.
    
- Eu sei o teu nome porque tu ias no autocarro, no autocarro da excursão à Serra. No autocarro em que ia nascer uma nova era para a humanidade! Onde estava destinado a nascer o projecto MG. E ele nasceu! Tu és a prova. E o destino quis que me salvasses para ambos termos a certeza de que vocês são uma bênção para todos e não meras aberrações!
   
As declarações do rapaz fizeram a mente de Eva recuar uns dias atrás, no dia a seguir ao acidente. Só pensava nos boatos dos Ingleses e das suas experiencias loucas que estavam a fazer na vila de Vale do Fim e em todo o concelho a que a vila pertencia.
    
- Eu sou o Viktor! Pertenço ao PastFuture, a equipa de cientistas que trabalha num pequeno laboratório na fronteira de Vale do Fim. Tive de vir hoje aqui ao hospital para ver o miúdo que está a morrer e a reviver. Felizmente há mais de vinte e quatro horas que se tem mantido normal, esperemos que fique assim para sempre. Deve ser um desespero para a mãe dele isso lhe estar a acontecer.
    
- Foi o vosso grupo de cientistas que causou o acidente? – Eva estava a começar a pensar que aqueles rapazes deviam ter feito justiça com as suas mãos, aquele rapaz que estava à sua frente podia ser o causador da sua desgraça, e ela acabara de o salvar.
    
- Não, ninguém no PastFuture causava tal calamidade, foi o… espera, eu não posso pronunciar o seu nome, August diz que é agoirento dizê-lo em voz alta!
    
- Quer dizer que tu sabes quem causou o acidente?! E porque razão dizes que naquele autocarro iria ser lançado o projecto MG?
    
Viktor agarrou na sua mão e encaminhou-a para um sítio mais isolado. Não sabia porquê mas o rapaz parecia-lhe de confiança e apesar de não lhe estar a contar tudo o que aconteceu realmente no autocarro ele estava a querer levá-la a algum sítio. Pararam um pouco mais à frente, perto do local onde Eva estacionara o seu carro. Pareceu-lhe um pouco sem rumo, por isso ela perguntou-lhe onde a queria levar e ele respondeu que a queria levar para um sítio onde tivessem privacidade, porque o que lhe estava prestes a contar não podia ser ouvido por muita gente. Eva disse-lhe conhecer o local ideal e guiou-o até à sala onde ia treinar.
    
- Não vem aqui ninguém durante a manhã! Por favor, conta-me o que se está a passar connosco! Como é que eu posso ter corrido a uma velocidade imaginável até ti quando aqueles rapazes te queriam bater?
    
- O projecto MG é um projecto curioso. Mutação Genética. O objectivo daquela missão no autocarro era lançar o soro e vocês adormecerem todos, excepto o condutor que era contratado por nós e lançou-o no autocarro momentos antes dele cair pelo abismo. Alguém fez com que um lobo aparecesse na estrada fazendo o motorista virar bruscamente o volante e fazer-vos cair. Alguém que não queria que a missão fosse bem sucedida.
   
 - Isso explica o cheiro estranho que se fez sentir no autocarro minutos antes de eu adormecer e por isso não me lembrar da queda do autocarro. Quem provocou o acidente, ele também pertence à PastFuture?
    
- Pertenceu em tempos, antes de virmos para Portugal. Muito antes de eu entrar para a equipa. Ele era o braço direito de August, o líder do nosso instituto, mas o projecto CM fez com que se zangassem. Eles tinham as suas divergências e o que estava por trás desse projecto gerou um conflito entre eles.
    
Projecto MG, Projecto CM, cada vez mais Eva percebia menos do que o rapaz lhe estava a dizer. Ela não queria saber dos outros projectos, só queria saber daquele que involuntariamente fora inserida.
   
- Não divagues, preciso que me digas o que me está a acontecer. Como posso eu ter corrido até ti em segundos naquele beco? Porque sinto mais fome e outras necessidades? Porque parece que me sinto estranha?
    
- Calma, tudo isso são sequelas do soro de veneno de cobra e crocodilo. Vais notar muitas transformações nos próximos dias. Vocês foram as primeiras cobaias humanas, até agora só tínhamos testado o soro em ratos, mas o que vos vai acontecer não deve diferenciar-se muito do que lhes acontecia a eles. Deves sentir mais fome, um pouco mais de força, consegues correr mais rapidamente e também deves sentir mais apetite sexual. Ah e tens um objecto cortante? Gostava de te mostrar uma coisa.
    
Eva não tinha nada que cortasse consigo, então os dois deslocaram-se ao pequeno refeitório que havia na escola de dança. Não havia ninguém por lá, apenas eles dois. Abriu uma gaveta e encontrou talheres. Tirou uma faca e deu a Viktor. O rapaz avisou-a que podia doer um pouco o que lhe ia fazer mas que não se preocupasse, o que iria acontecer a seguir era algo maravilhoso, algo que nunca contemplara na sua vida. O cientista agarrou-lhe a mão e fez-lhe um corte, fazendo-a sangrar.
    
- Estúpido, porque me fizeste isso. Agora nem um penso tenho para tapar o ferimento.
    
- Não precisas, olha só o que te vai acontecer agora! – Disse-lhe Viktor completamente extasiado.
    
Sem explicação a ferida começou a sarar depois da faca lhe perfurar a pele. Viktor agarrou-lhe novamente a mão já curada e sorriu para ela.
    
- Este é outro dos efeitos do projecto MG, regeneração rápida da pele!
    
- E o que se passa com o pequeno miúdo que ia no autocarro? Porque ele anda a morrer e a ressuscitar?
    
- Esse é um facto ainda desconhecido, nenhum dos ratos apresentou esse sintoma depois de ser exposto ao soro. O pequeno Miguel é uma incógnita. Vai ter de ser estudado por nós para que possamos compreender melhor o que lhe está a acontecer. Além disso já há mais de vinte e quatro horas que nada lhe acontece. O efeito pode já ter passado, temos de esperar, é tudo novo tanto para nós como para vocês.
    
- Podia odiar-te, sabias? – Disse-lhe Eva. – Tu estragaste-me a vida, pelo menos até eu me habituar a isto, se é que isso é possível. Eu sou agora uma aberração!
    
- Uma aberração?! Tu és algo maravilhoso, um ser que consegue correr mais que uma chita, que regenera a pele ferida, que consegue ajudar quem está em perigo. Se não fosses tu Deus sabe como estaria agora. Tu és uma heroína. Tu e os outros que também estão na tua situação. Vocês são heróis, lembra-te disso.
    
- Eu podia odiar-te na mesma, mas não consigo, por alguma razão confio em ti. Gosto de ti, mas promete-me uma coisa, vais sempre deixar-me a par de tudo o que está a acontecer connosco!

Continua...

 Vale do Fim - Capítulo 5 (Parte 1)
Por Ricardo Reis

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