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Vale do Fim | Capítulo 4 (Parte 2)

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Capítulo 4À descoberta do que pode ter acontecido (Parte 2)


Era quase hora de almoço e Joaquim queria assinar todos os papéis que se encontravam espalhados na sua secretária até lá. Não estava com disposição para aquela tarefa, o seu neto estava internado. Ainda naquela manhã deixara de respirar novamente, a terceira vez em dois dias. Algo estava errado e ele fazia parte do grupo que ajudou a que aquilo lhe estivesse a acontecer. Não havia como não se sentir culpado do acidente que ocorrera na fronteira de Vale do Fim. Se ele não tivesse vendido as pessoas como cobaias ao grupo de cientistas liderado por August, o seu neto não estava naquele estado. Os mortos estariam vivos, a casa mortuária não estaria lotada. Agora era tarde para se estar a lamentar. O mal estava feito e ainda não havia sido inventada uma máquina que fizesse com que o tempo voltasse para trás.
             
Bateram à porta. Era Lígia, a sua secretária. Era jovem, uma mulher muito bela que chegou a Vale do Fim sem nada. Não tinha casa, não tinha trabalho. Foi o antigo presidente que a ajudou. Alugou-lhe uma casa que era paga através do salário que recebia da Câmara Municipal. Quando chegou à presidência, Joaquim não teve coragem de manda-la embora e não podia ter mais satisfeito com a escolha que tomara. Lígia era muito prestável e muito trabalhadora. Era muito reservada, não falava muito, mas o homem gostava dela assim.

- Senhor Joaquim, o senhor August está aqui! – Anunciou-lhe a secretária.

Joaquim disse para o mandar entrar e rapidamente o líder dos cientistas ingleses chegou à sala, sentando-se à sua frente. Trazia consigo um envelope que lhe deu para a mão.

- O que lhe quero dizer é que o projecto Mutação Genética foi um sucesso! – Disse August enquanto Joaquim olhava para os papeis que continham o resultado das análises feitas aos cinco sobreviventes, analises às quais o seu neto apenas fora submetido naquela manhã.

- Projecto Mutação Genética? É isso que significa a sigla MG? – Joaquim pareceu um pouco surpreendido. Olhou mais uma vez para as análises e exames que vinham no envelope. O padrão era semelhante, os níveis de açúcar no sangue estavam a zero, a tensão arterial a valores que eram impossíveis para um ser humano normal. No relatório do exame da prova de esforço de um dos sobreviventes, o ritmo cardíaco ultrapassou os duzentos e trinta batimentos por segundo, algo impensável. – O que vocês estão a criar? O que fizeram com o meu neto? Ele morre, ressuscita, morre novamente e ressuscita pouco depois. Como vamos viver com ele assim? Explique-me.

- O seu neto foi um efeito colateral! Nunca tínhamos visto nada assim quando fizemos o experimento em ratos. O seu neto parece estar a sofrer uma mutação diferente dos outros. Poderíamos ajuda-lo, se a sua filha o tivesse levado a fazer os exames no hospital.

August estava com um sorriso no rosto o que enraivecia ferozmente Joaquim. Estava a passar a situação mais complicada da sua vida, o seu neto estava a ter uma reacção completamente nova à experiência louca que o inglês lhe fizera, mas ele, mesmo assim, ainda se estava a rir. Ri-se da minha desgraça. 

- Eu quero uma solução para o meu neto, quero-o vivo! Quero-o são, não quero que tenhamos medo de que ele adormeça e não volte a acordar. Quero o mesmo menino que era há uns dias.

- Quer? Você sabia que a partir do momento em que ele entrasse naquele autocarro nunca mais seria o mesmo menino que conhecia. Podia não saber que aquilo que faríamos era uma experiência de mutação genética, mas sabia que ele ia mudar. Eu posso não lhe ter dito nada, mas no fundo você sabia que nada ia ser como antes. Quando eu apareci aqui ao pé de si e expliquei-lhe o que queria fazer você não hesitou em compactuar comigo, agora é tarde para ressentimentos. Temos de seguir em frente. Eu prometo que o seu neto será o mais normal possível, nos nossos parâmetros.

August preparava-se para sair. Pegou no envelope e levantou-se da secretária. Joaquim levantou-se ao mesmo tempo e disse-lhe:

- Espere! Temos um problema que precisa de ser resolvido! Um dos sobreviventes, o Artur, você deve saber que ele pertence à polícia aqui no concelho.

- Sim, eu estive a pesquisar a vida de cada um dos sobreviventes. Não os conheço como a palma da minha mão, mas quero conhecer! Não vejo como ele possa ser um problema. – August parecia ainda mais calmo do que quando entrara no gabinete da presidência de Joaquim.

- Ele quer investigar aquilo! E conhecendo-o como eu o conheço, ele não vai parar enquanto não conseguir provas concretas do que se passou no autocarro e lhe está a causar modificações. Ele próprio disse-me que queria liderar a investigação!

 August esboçou um sorriso, o que deixou Joaquim confuso. O presidente do concelho sempre pensou que, quando o cientista soubesse o que se estava a passar com Artur, ficasse ficaria furioso, capaz de o matar. Em vez disso, chegou-se ao pé dele e abraçou-o.

 - Se não fosse ateu diria que temos de agradecer a Deus ter salvo esse homem! Ele vai ajudar-me, ajudar-nos a detê-lo. Ele não pode ficar-se a rir enquanto matou uma série de pessoas e me arruinou a experiência!

- Você tem a certeza de quem foi? – Questionou Joaquim ao ouvir o homem. Ele parecia ter a certeza daquilo de que falava.

- É claro que tenho a certeza de quem o fez! Ninguém mais me quer tão mal ao ponto de matar vinte e cinco pessoas colocando um lobo na estrada, mas com certeza que ele não está a trabalhar sozinho, deve ter um cúmplice aqui em Vale do Fim. Se o Raul estiver do meu lado, ele vai ajudar-me a encontrá-lo. Eu sei que vai!

- Sabe que ele não vai reagir bem quando souber o que aconteceu momentos antes do acidente! Ele vai ficar furioso quando perceber que foram alvo de uma experiência… Da sua experiência!

- Ele vai ajudar-me! Dê-lhe o meu contacto. Eu tratarei do resto!

August saiu e Joaquim voltou a ficar sozinho no escritório. Ficou a pensar em Raul e nos outros sobreviventes. E pensava no seu neto, esse nunca lhe saia do pensamento. Pensava neles e naqueles mortos que estavam por enterrar. Haverá mais algum que se levante como o meu pequeno Miguel se levantou?, era tudo o que lhe vagueava pela cabeça. Com tudo isto, esqueceu-se de que era hora de almoço. Foi preciso a sua secretária bater à porta para dizer que ia almoçar. Antes dela sair, Joaquim avisou-a que iria estar fora da câmara naquela tarde, o seu neto precisava dele.


Continua...

Vale do Fim - Capítulo 4 (Parte 2)
Por Ricardo Reis
Vale do Fim | Capítulo 4 (Parte 2) Reviewed by Fantastic on 19:30:00 Rating: 5

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