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Vale do Fim | Capítulo 4 (Parte 1)

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Capítulo 4À descoberta do que pode ter acontecido (Parte 1)
    
Raul ligou o bico do seu fogão e pôs uma panela com água para ferver. Enquanto a água fervia, deslocou-se ao seu quarto para ver o que iria vestir. Era uma noite para celebrar, estava vivo, sobrevivera a um terrível acidente. Não iria usar a batina, estava cansado de a usar. Era curioso como nos últimos tempos pensava no voto de castidade que fizera há cerca de quinze anos antes de se tornar padre. Esse voto já não existia, há meses que se encontrava com mulheres. Muitas delas assistiam às suas missas e ficavam por lá à espera que todos saíssem para falar com ele. Sentiam-se carentes. A maioria eram mulheres casadas, mas os seus maridos não lhe davam especial atenção. Ou não lhes davam a atenção que elas pretendiam. Raul era um homem atraente e já dizia o velho ditado que “o fruto proibido era o mais apetecido”. Recordou a primeira vez que uma mulher o abordara. Era a mulher do padeiro. Quando acabara a missa daquele dia, há cerca de seis meses, a mulher foi ter com ele e perguntou se se poderia confessar. Ele não viu malícia nenhuma nas palavras da mulher e seguiram os dois para o confessionário.
 
- Eu pequei, Raul! – Disse a mulher. Tinham mais ou menos a mesma idade e conheciam-se há algum tempo, por isso não tinham qualquer tipo de formalidade um com o outro. – Tenho pecado a maior parte das noites.
 
- O sexo não é pecado quando é feito para procriação. Procriar é uma dádiva divina!
 
- Eu não faço sexo todas as noites, apenas sonho que o estou a fazer… contigo. Sonhos completamente molhados! Sonho que me possuis enquanto me beijas, que me montas enquanto eu gemo de prazer.
 
- Estamos a entrar por um caminho desconfortável. – Raul não sabia o que responder. – Estamos aqui para uma confissão, mas podes ser mais cuidadosa com o que me estás a querer transmitir.
 
- Vem comigo beber um café esta noite. O meu marido não está em casa, os meus filhos estão com a minha sogra…vamos pecar os dois juntos, Raul.
 
Raul sabia que o que estava a fazer podia mudar a sua vida por completo. Sempre tinha respeitado os seus votos, mas sentia-se atraído pela mulher que estava no confessionário. Não serei um padre pior se o fizer uma vez, as mulheres não são como a droga, não ficamos viciados nelas.
 
Aceitou e foram até ao café de Joana, uma das suas amigas de infância. Era um pequeno café que ficava no centro da Aldeia. Ficava no rés-do-chão da moradia onde ela residia com o seu filho Miguel. Viviam apenas os dois desde que o marido os abandonara sem dizer os motivos que o levaram a faze-lo O café era um espaço pequeno quando comparado com outros cafés existentes na sede de concelho onde se inseria a Aldeia, mas era um espaço acolhedor onde os poucos habitantes se juntavam principalmente para ver os jogos de futebol que eram transmitidos nos canais desportivos da televisão paga. Naquele dia, felizmente para Raul, que tinha medo de ser encontrado com uma mulher num espaço público, o café encontrava-se praticamente vazio.
 
- Quero que vás comigo para a cama! – Disse a mulher baixinho só para ele ouvir. – Quero que me comas de todas as posições mais estranhas que conheceres.
 
Essa declaração deixou Raul completamente desconsertado. Não sabia o que dizer depois daquela investida. Por um lado, queria pular a cerca, libertar-se da prisão em que vivia no que dizia respeito ao sexo feminino. Por outro, sentia-se mal por quebrar os seus votos de padre. Via-se no meio de uma encruzilhada, onde a tentação parecia o caminho a seguir, o prazer em detrimento da fé. Nessa noite, deixou-se levar pelos prazeres da carne.
 
Aquela não fora a única noite em que pecou. Sem dar conta, a mulher com quem passara uma noite, passara a ser sua amante. Não bastavam os pecados carnais, Raul tinha de conviver com uma traição a um homem com quem convivia quase todos os seus dias. Para não darem nas vistas, começaram a deslocar-se para a sede de concelho onde pertencia Vale do Fim e em vez de cafés passaram a bares e, por vezes, até discotecas. O padre passara a ter uma vida que nunca imaginara ter. Uma vida boémia.
 
Uma zanga entre ele e a mulher do padeiro levaram a que se deixassem, mas Raul não conseguia largar a vida que vivia há três meses, não conseguia voltar ao celibato, à vida caseira que tinha até então. Passou a frequentar bares e ao final da noite levava quase sempre uma mulher até à sua moradia em Vale do Fim. As pessoas começaram a comentar e as mulheres de mais idade, crentes fiéis, até realizavam tumultos e manifestações para que Raul fosse retirado da Igreja, mas não tinha dado em nada. As missas, essas é que cada vez tinham menor adesão por parte dessa gente que criticava o estilo de vida que seguia.
 
Uma noite, quando Joana estava a fechar o café e se preparava para subir para a sua casa, Artur abordou-a. Perguntou se não queria ir com ele tomar um café à sede de conselho. Joana aceitou e tudo acabou como acabava com as outras raparigas, na cama dele. Desde esse dia que ele e Joana mantinham um relacionamento secreto, discreto o suficiente para ninguém suspeitar de nada.
 
Os pensamentos deixaram a mente de Raul tão ocupada que nunca mais se lembrara do tacho com a água a ferver. Quando se lembrou, correu para a cozinha e só se apercebeu da sua velocidade quando chocou contra a parede. Completou em três segundos um percurso que demoraria, normalmente, cinquenta. Era impossível, por mais rápido que corresse, chegar em tão pouco tempo àquela divisão da sua casa. Algo se estava a passar com ele. Quando desligou o fogão, o seu coração parecia saltar do seu peito. Nem se lembrava de ter visto alguma coisa enquanto corria, a velocidade não o permitira.
 
Vestiu-se e deslocou-se até à casa de Joana. Como o seu café estava encerrado, o portão também se encontrava fechado por isso abriu-o e subiu as escadas. Subiu-as de novo a uma velocidade alucinante, sem perceber sequer como não tinha tropeçado nos degraus que percorrera. Percebeu que Joana ficou um pouco assustada quando lhe abriu a porta. Falaram. Raul estava demasiado nervoso e só queria ver o pequeno Miguel. Alguma coisa deve ter acontecido com o menino também, pelo menos na sua perspectiva. Quando viu que o rapaz tornara a não ter pulsação, que estava aparente morto novamente, ficou ainda mais preocupado que a própria mãe que se encontrava a gritar ao telemóvel para pedir uma ambulância. E se eu morrer e retornar como ele? O que nos está a acontecer?, perguntas que não tinham qualquer sentido estavam agora a ser-lhe colocadas pelo seu pensamento.
 
A ambulância chegou cerca de trinta minutos depois. Raul viu que os médicos fizeram várias tentativas de reanimação, mas o rapaz não dava sinais de vida. Estava morto. Pela segunda vez. Mesmo assim, os médicos levaram-no na ambulância junto com Joana. Raul seguiu no seu carro até ao hospital. Quando chegou, Joana disse que, por milagre, Miguel voltara a recuperar os sentidos.
 
- Aconteceu algo naquele autocarro. Eu acho que Deus me está a castigar pelos pecados que tenho cometido nestes últimos meses, Joana! Ele está a fazer-me ver que errei!
 
- E o meu filho, o que fez o meu filho para Deus o querer castigar? Como posso deixá-lo dormir sem pensar que ele pode não acordar? Como vou fazer o meu dia-a-dia com isto tudo que está a acontecer?
 
- Onde está ele? – Questionou Raul.
 
- Está a descansar num quarto, com uma enfermeira sempre perto dele para o caso de voltar a acontecer! Vai ficar internado nos próximos dias, até ser explicada a razão para tudo isto estar a acontecer. Isto se a encontrarem antes… antes dele se ir embora de vez. – Raul viu as lágrimas de Joana caírem-lhe pelo rosto.
 
Seguiu ao seu encontro e abraçou-a com força. Queria que ela sentisse o seu apoio, queria que ela sentisse que não estava sozinha naquele momento difícil que atravessava.
 
- Acabei por não saber o que me querias contar quando foste lá a casa? – Perguntou-lhe.
    
- Nada de especial! – Respondeu. Joana já tinha muitas preocupações não precisava de mais nenhuma.


Continua...

Vale do Fim - Capítulo 4 (Parte 1)
Por Ricardo Reis
Vale do Fim | Capítulo 4 (Parte 1) Reviewed by Fantastic on 19:30:00 Rating: 5

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