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Vale do Fim | Capítulo 2 (Parte 3)

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Capitulo 2O Retorno (Parte 3)

Joana encontrava-se inconsolável. Como o seu filho tinha sido a vítima de menor idade, o seu funeral foi dos primeiros a realizar-se. Tinha uma vida inteira pela frente, eu não podia perder o meu menino agora, não podia, pensava ela agarrada ao corpo imóvel do seu filho. Estava pálido como nunca o tinha visto.
    
Além do filho, o padrinho dele e um outro habitante da aldeia estavam a ser velados naquele momento. Eram muitos os mortos que precisavam de ser enterrados e questionava-se se o cemitério da aldeia iria ter lotação suficiente para tantos corpos de uma só vez. Eram vinte e cinco, um número elevado para um cemitério minúsculo como o de Vale do Fim.
    
Sentira uma mão a tocar-lhe no ombro. Era Joaquim, o seu pai. Mesmo assim, ela não deixou o corpo do seu filho, no dia seguinte iria ser cavada uma cova onde o iriam colocar e ela queria aproveitar todos os momentos com aquele corpo inanimado que um dia fora cheio de vida e energia. Também não conseguia encarar o pai. Não conseguia encarar ninguém desde que descobrira que a lua da sua noite desaparecera, deixando-a numa imensa escuridão. O seu peito doía-lhe, desde então. Desde que telefonara para o seu pai, ainda no seu café, e ele lhe dera a notícia que o seu filho não resistira aos ferimentos. Ainda não sabia o que fazer. Como seria a sua vida sem as estrelas do seu luar?
   
- Tens de comer alguma coisa. – Aconselhou Joaquim. – Não te faz bem, estares nesse estado. Tens de ter forças para prosseguir, para te recompores disto tudo.
   
- Como me vou recompor pai? Explique-me. Sem o Miguel eu não tenho nada que me prenda aqui. Preferia que a vida me tivesse levado a mim em vez dele. Porque é que isto teve de acontecer? Porquê?
    
Um homem aproximou-se. Era Artur.
    
- Ouve o que o teu pai te diz. Tens de ser forte, tens de olhar para ti agora que ele não está mais aqui.
   
Joana conhecia Artur há muito tempo, desde criança. Estudaram nas mesmas escolas, partilhavam o mesmo círculo de amigos e confidenciavam muitos segredos um ao outro. Quando descobriu que estava grávida de Miguel, foi a Artur que contou em primeira mão. Ainda se lembrava do dia chuvoso que estava quando saíra à rua para ir comprar o teste de gravidez, para obter a confirmação. Ficou radiante, tão radiante que explodira de felicidade. Nesse momento não telefonara para o pai do seu filho ou mesmo para os seus pais. Telefonara a Artur.
    
Agora só lhe restava tristeza. O seu coração parecia estar a partir-se em mil bocados ou até mais. Não sentia fome, não sentia sede, não sentia vontade de viver. Tudo o que queria naquele momento era que o tempo voltasse para trás, para o momento em que tinha o seu filho nos braços, na manhã em que se dera a inevitável tragédia.
    
Caminhou até ao caixão que se encontrava ao lado da urna do filho. Olhou para o padrinho dele. Estava tão pálido quanto Miguel. O que era para ser uma aventura entre padrinho e afilhado, acabou por ser a perda de dois pilares da sua vida. A cara do homem estava completamente destruída, as bochechas não tinham pele e a testa também não. Custava-lhe olhar para ele e, por essa razão, voltou a deslocar-se para o caixão da criança que carregou no seu ventre durante nove meses.
    
Agarrou na mão gélida do menino e pensou para si porque razão estava a acontecer aquilo com ela. Fechou os olhos por uns momentos e deixou a sua mente flutuar em memórias felizes que os dois tiveram. Essas memórias desapareceram quando sentiu a mão do seu filho mexer. Impossivel! Deve ser só da minha cabeça. Tens de cair na realidade Joana. Quando olhou para a sua cara viu a sua pele ganhar cor, voltar a ser morena. Em poucos segundos os olhos do pequeno rapaz abriram-se e ele sentou-se no caixão.
    
- Porque estás triste, mãe? Porque todos estão tristes? – Perguntou o menino.    

Joana não queria acreditar no que os seus olhos viam. Aquilo não podia estar a acontecer. O seu filho estava morto, os médicos verificaram isso. Como podia ele estar ali como se nada tivesse acontecido?
    
Todos ficaram assombrados com o que se sucedeu naquele momento.

Fim do capítulo 2


Vale do Fim - Capítulo 2 (Parte 3)
Por Ricardo Reis

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