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Segunda Opinião | "A Única Mulher: é impossível… até a TVI querer"


Estreada a 15 de março de 2015, A Única Mulher foi a aposta da TVI para recuperar a liderança das novelas, que passou a pertencer à SIC. Esta seria uma trama diferente do habitual, pois tratava do racismo e tinha um elenco muito equilibrado, entre atores portugueses e angolanos.

A "primeira temporada" da novela não conseguiu a liderança, mas trouxe de volta a confiança dos espetadores, que estavam magoados com o canal por este tratar mal os seus produtos de ficção e só se preocupar com as audiências (veja-se o exemplo de Mulheres ou Jardins Proibidos que sofreram várias mudanças de horário). Maria João Mira conseguiu com A Única Mulher trazer qualidade e a TVI acabou por se aproximar da TVI.

O elenco também foi um dos grandes responsáveis por isso. A evolução de Lourenço Ortigão é notória em Luís Miguel e Ana Sofia mostrou ser a verdadeira “única mulher", desempenhando o seu papel de uma forma brilhante, nesta sua estreia como atriz em televisão. Os veteranos Alexandra Lencastre, José Wallenstein, Silvia Rizzo, Paula Neves, Pedro Lima e Nuno Homem de Sá foram ótimas escolhas, assim como a excecional Mina Andala e os restantes atores angolanos, que mostraram o seu talento. Já Graciano Dias, Joana de Verona, Maria Leite e os pequenos Bruno Semedo, Maria Arrais e Isaac Carvalho foram as grandes revelações do elenco.


Na sua primeira parte, a telenovela conseguiu ter um bom ritmo. Sem exageros de mortes ou episódios a mais, seguiu uma linha coerente, abordou temas que são considerados tabu e fez o seu trabalho enquanto novela. Depois disto, e devido ao seu sucesso, a TVI decidiu prolonga-la para uma "segunda temporada", orgulhando-se das audiências e de ser o primeiro canal a ter uma novela com temporadas (esquecendo-se, com certeza, da RTP1 e de Os Nossos Dias). Começaram as mortes descabidas e as viagens sem regresso tão típicas da TVI para "despachar" atores como André Nunes (que fazia de Orlando), Maria Leite (Ana Maria) e Graciano Dias (Diogo). Com estas mortes, ficaram muitas coisas por explicar e histórias por terminar. Assim estreou a "segunda temporada".

Novos rostos, familiares das personagens que apareceram sem explicação, como Rodrigo (interpretado por Pedro Barroso),  o ex-namorado de Luena (Rita Pereira); António Lucena (Pedro Carmo); Mina (Lídia Franco) e Vita (Maura Faial) . Começaram a trazer histórias do passado para dar coerência a estas personagens, mas a ideia falhou. A trama começou a ficar descaracterizada, mas seguiu com bons resultados e assumiu a liderança, fruto da boa escrita da autora, que soube dar a volta. 

Devido às audiências, o canal decidiu apostar numa terceira temporada. Mais mortes; mais viagens sem regresso (desapareceu o núcleo Caiado, com o atores Pedro Lima, Leonor Seixas, Diana Melo e João Fernandes); novos rostos que vieram "do nada", como Tomás Alves (Rui), Miguel Valle (Tomé) e Susana Mendes (Benedita) e erros de continuidade, como os bebés de Luena e Clara, tão comentados nas redes sociais.


Agora o principal cenário da novela é um hospital e esta perdeu a sua verdadeira essência. Todas as personagens passaram a trabalhar lá, deixou-se de lado antigos cenários - como a Hamburgueria - e a história de amor de Luís Miguel e Mara parece ter sido posta de lado, visto que todos os acontecimentos se fazem agora neste hospital, curiosamente, com o mesmo nome do de Jardins Proibidos e até muito semelhante. A TVI não aprendeu a lição e decidiu voltar a tentar. Agora, vemos novamente uma protagonista médica, com um pretendente também médico e uma enfermeira má. É inevitável esta associação entre as novelas. 

A trama perdeu a sua essência, o contraste feito entre Angola e Portugal. Perdeu grande parte do elenco inicial, do elenco angolano e os novos rostos são quase na totalidade portugueses. Não é a mesma novela e o público apercebeu-se disso. A TVI conseguiu mais uma vez descaracterizar uma história que tinha tudo para sair pela porta principal se tivesse terminado na "primeira temporada". Prevê-se agora uma quebra de audiências e A Única Mulher pode perder a liderança para a SIC e ser rejeitada pelo público. Esperemos que não, pois nem a autora nem os atores merecem. 

Segunda Opinião - Edição 59
Diário da TV
Uma rubrica em parceria com o Fantastic