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Fantastic Entrevista | João Correia de Sá


Nesta edição do Fantastic Entrevista, estamos à conversa com o fashion stylist português João Correia de Sá. Para além de nos falar sobre o seu trabalho e contar como tem sido o seu percurso profissional, o jovem de 19 anos explica o que é o styling e qual a dimensão desta área artística no nosso país.

És um dos jovens promessa na área do styling. Quando é que te surgiu o interesse e a paixão por esta área?
Antes de mais, não me considero uma jovem promessa. Acredito no que faço mas também acredito que haverá promessas, nas quais eu não estou inserido – pelo menos para já.  O interesse pela área e por esta indústria surgiu aos meus 12 anos, quando comecei a consumir de forma mais assídua produtos relacionados com moda (revistas, programas de televisão, algumas marcas de que gostava na altura) e quando comecei a ver-me refletido em muitos desses produtos e formatos.


O que te levou a investir numa carreira nesta área?
O investimento partiu não só por gosto pessoal, mas também pelo interesse que sempre me suscitaram as questões do belo e o lado estético das coisas, mesmo que muito atabalhoado por vezes. Ao longo do meu ensino secundário fui tendo diversas experiências, e consequentemente ganhando consciência de que esta poderia ser uma área-chave no meu percurso profissional.



O fashion styling ainda é uma área pouco conhecida pela maioria das pessoas. Em que é que consiste o trabalho de um fashion stylist? E porque é que ele é indispensável?
Um fashion stylist, em termos muito resumidos, é a peça ou a pessoa que faz a interlocução entre um cliente e uma necessidade específica – seja ela um editorial de moda ou produto, uma marca de roupa ou até mesmo um cliente particular – e a indústria da moda. O stylist é, portanto, quem fica encarregue de coordenar diferentes peças de roupa, calçado e acessorização, consoante as necessidades do cliente e problemas que vão surgindo durante o processo. Porque é que ele se torna indispensável? Porque possui os conhecimentos e, geralmente, o gosto necessário à execução dessa tarefa.

O styling é uma área de formação atrativa para os jovens?
Depende muito. Quem acha que ser stylist é só ver desfiles, selecionar peças e fazer coisas bonitas, engana-se. Como em todas as áreas, a formação não traz – nem de perto, nem de longe – a experiência necessária à atividade profissional. Contudo, sinto que esta área tem cada vez mais procura, quer em termos profissionais, quer em termos de formação e qualificação profissional, multiplicando-se assim o número de cursos e atividades de formação profissional nesta área.


Com apenas 19 anos, já contas com vários trabalhos publicados em sites nacionais online, como a Gentleman's Journal e a FMagazine, e em internacionais, como a AWAKE Magazine ou a Solis Magazine. Como surgiram essas oportunidades?
As oportunidades surgem de duas formas: ou por trabalho – o que me acontece na maior parte dos casos –, ou por social networking, que é como quem diz "estar no sítio certo à hora certa", ou à hora errada, conforme. Quanto aos sites referidos nos quais já publiquei trabalhos, posso dizer que lá cheguei através do meu mérito e do trabalho desenvolvido com diferentes equipas, que como se sabe, também são elementos-chave para o meu sucesso profissional. Estou a falar dos fotógrafos, agências de modelos, maquilhadores, cabeleireiros, assistentes, entre muitos outros.

Em que sentido foi importante poderes mostrar o teu trabalho fora do nosso país?
Num primeiro plano, achava que de nenhuma forma, mas rapidamente a ideia mudou. Ter trabalhos publicados em Angola ou na Rússia faz-me ter em consideração os diferentes mercados e a forma como estes se processam. Fazer um editorial para Angola certamente que não é o mesmo que fazer um editorial para a Rússia… Os contextos são diferentes, as tendências são diferentes, o gosto e a sensibilidade estética de cada país são diferentes, o que me obriga a fazer uma pesquisa ainda mais assertiva, e assim ter em mente que não estou a trabalhar em Portugal e para Portugal.


És estudante de História da Arte. O que te levou a optar por este curso? Como é que ele contribui para o teu trabalho na área da Moda?
Ingressei em História da Arte como segunda opção de candidatura, dado não ter entrado em Design de Moda (por cerca de duas décimas), mas acho que não me deixei ir abaixo. Esta sempre foi uma área que quis seguir, desde a minha entrada no ensino secundário, pelo que fiquei igualmente feliz e satisfeito com a entrada no curso, redefinindo naquele momento o que iria querer para a minha vida. Acho que a História da Arte e a Moda se interligam, quer seja pela cultura visual que fui aumentando e trabalhando, importante para a pesquisa que desenvolvo para os meus trabalhos, quer seja pela capacidade que fui ganhado para selecionar o que queria fazer em termos profissionais e com quem é que queria trabalhar nesses mesmos desafios a que me ia propondo. Atrevo-me a dizer que a opção de seguir História da Moda foi quase imediata assim que entrei no curso, não só pelo cruzamento entre as duas áreas, mas também por ser uma área com um fraco estudo dentro de portas.

Quais são as referências na área do styling que mais te influenciam? E na Moda em geral?
Como é lógico e basilar, primeiro inspiram-me as referências artísticas, sejam obras de arte físicas (pintura, arquitetura, instalação), sejam obras em suporte digital (fotografia, cinema e música). Por outro lado, inspiro-me muito pelo que vejo em streetstyle, dado ser uma das fontes principais do nosso trabalho, a forma como as pessoas, as massas, absorvem o que a indústria da moda lhes dá e consequentemente, a forma como assimilam o que lhes é dado. Por fim, mas não menos importante, destaco alguns nomes que preencheram a minha imagética na moda ao longo dos tempos: Dior, Balenciaga, Alexander Wang, Diane Von Fürstenberg, Luís Buchinho, Marques’Almeida e Filipe Faísca. Acho também muito importante referir os jovens criadores que fui vendo aparecer e que trouxeram uma "lufada de ar fresco" ao que ia vendo e às expetativas que tinha, daquilo que me era apresentado, reforçando aqui o nome de alguns criadores portugueses que me têm vindo a chamar a atenção: HIBU., Cristina Real, Carolina Machado, Banda e Carla Pontes.


Já trabalhaste com várias marcas nacionais, as quais te deram a oportunidade de vestir nomes como a Rita Pereira, Bárbara Norton de Matos e, mais recentemente, a jornalista e comentadora da SIC Caras Joana Latino. Como foi trabalhar com estas personalidades e o que é que estas experiências significaram para a tua carreira?
As oportunidades de trabalho com estas três personalidades surgiram de formas e em contextos diferentes. Foram três clientes muito diferentes, quer pelo desafio que me proporcionaram, quer pelas soluções que tive de encontrar para as diferentes situações que se colocaram. As experiências são mesmo isso, experiências, serviram-me não só para ganhar mais portefólio, mas também mais contactos e consequentemente aprimorar o que deveria ou não fazer e o que resultará melhor num corpo do que noutro.

Sendo estas figuras tão mediáticas no panorama nacional, achas que a televisão é ainda um dos principais meios de promoção para um artista como tu?
A televisão, quer se queira, quer não, é um meio muito seguro para a promoção do nosso trabalho. É algo que é imediato, que resulta e por que não temos de esperar muito tempo pelos resultados. Com a proliferação das redes sociais no contexto televisivo, as reações por parte do público começaram a ser quase imediatas, servindo-nos assim – quer às clientes, quer aos stylists – de feedback, no minuto em que é colocado no ar.


Para além da televisão, que outros meios são propícios à divulgação do teu trabalho?
Temos sempre as revistas, que mal ou bem, são um mercado estável e fixo. Por outro lado - e a mim agrada-me mais esta vertente - o trabalho com marcas de roupa, calçado e acessorização funciona como uma montra gigante. Contudo, muitas vezes, o nosso trabalho pode ser absorvido pela marca ou pelo peso que o factor de venda de uma coleção tem, quando comparado com o lado criativo do trabalho em editorial. Apesar deste contingente, acho que já me habituei bem a trabalhar em contexto comercial e a ver o que funciona melhor dentro das marcas, o que se insere melhor nos diferentes targets e como se deverá vender melhor, ou não.

Sendo a Moda um meio profissional tão competitivo, que dificuldades sentiste, ou sentes, para conseguir vingar na área do styling em Portugal?
Para além da saturação de mercado, que é um problema que me preocupa imenso, especialmente em indústrias competitivas, acho que as dificuldades mais sentidas passam pelos custos de produção e cachets envolvidos quer em trabalhos de editorial, quer em trabalhos comerciais, que apesar de tudo, são os que melhor resultam e envolvem mais dinheiro. Em Portugal, as pessoas sentem a necessidade de querer que os trabalhos sejam feitos a custo zero, ou no menor custo de produção possível. Compreende-se que o mercado não seja tão próspero, quando comparado com os de Londres, Paris ou até mesmo da Rússia, mas não se pode pedir que equipas de diversos elementos, trabalhem a custo zero ou por "ninharias", porque nós também temos contas para pagar, comida para colocar na mesa e despesas inerentes ao nosso trabalho.

Quais são as tuas ambições em termos profissionais? Ambicionas construir uma carreira internacional caso a oportunidade se proporcione? 
Para já, as minhas ambições profissionais passam muito pelo vingar em termos académicos. Quero terminar a minha licenciatura, realizar uma pós-graduação, um mestrado e, quem sabe, um doutoramento, interligando estas minhas duas paixões. Sei que um dia terei que abdicar do trabalho como stylist, que desde os meus 16 anos fui desenvolvendo em paralelo com o meu caminho na escola, mas até lá, espero conseguir continuar, selecionando os trabalhos que me sejam mais proveitosos e que me realizem mais como oportunidade de crescimento profissional.

Fantastic Entrevista | Temporada 8 -  Edição 1
Maio de 2016

Convidado: João Correia de Sá
Entrevista: Rita Pereira